19 de maio de 2009

CARTA PÓSTUMA A DARWIN

Tenho pensado muito em Charles Darwin diante da comemoração do seu bicentenário. Este homem, que foi um marco na biologia moderna, teve a grande maestria de em pleno século XIX, ampliar a visão humana sobre a própria existência, através da teoria da evolução das espécies. Comecei a questionar como Darwin se sentiria no atual século XXI, e desta forma, como a arte abre as portas para todas as possibilidades, decidi escrever-lhe uma carta, colocando dentro de parênteses imaginários todo este tempo que nos separa.

Ilmo Sr. Darwin,
Escrevo para lhe contar sobre a evolução de nossa espécie no século XXI. O senhor inicialmente deve imaginar que foram poucas as mudanças em apenas 200 anos, mas dependendo do referencial, o ser humano mudou sim... e muito. Sei que ainda serão necessários milhares de anos para que mudanças físicas significativas ocorram em nossa espécie, mas como o senhor mesmo mencionou em sua teoria, tais mudanças serão fruto da adaptação dos mais aptos a este meio que continuamente se transforma. E é deste meio, ou melhor, do mundo atual que venho lhe falar.


Movemo-nos muito menos atualmente. As carruagens e veículos a vapor destinados a poucos em sua época, foram substituídos por um aglomerado de carros e ônibus nas grandes cidades. As linhas férreas permanecem, mas além delas surgiram os metrôs que percorrem longas distâncias em pouco tempo. Praticamente não há como andar de bicicleta nas ruas, com o risco de sermos atropelados por veículos maiores.


Em sua época, o lazer resumia-se a passear pelos campos e praças, assistir a peças de teatro, e reunir-se para longas conversas em família. Hoje, estes costumes permanecem, mas o surgimento de inúmeras possibilidades tem nos levado a escolher aquelas que justamente nos afastam do convívio social e que não nos exigem grandes sacrifícios. Imagine o senhor, que ficamos sentados por longas horas em frente a uma caixa, onde a imagem de pessoas aparece como se fossem peças de teatro em miniatura, e praticamente não nos movemos diante dela. Esta caixa chama-se televisão. Para piorar, foi criada outra caixinha bem menor com vários botões, que permite ligar e desligar esta caixa maior, sem que precisemos nos locomover. É o chamado controle-remoto.


Mas não estamos somente mais sedentários. Nossa alimentação também mudou. A agricultura e a criação de gado persistem, porém bem mais grandiosas. Há tecnologia empregada no campo e na produção de alimentos industrializados. Hoje o alimento é mais acessível às classes sócio-econômicas menos favorecidas, embora em algumas partes do mundo ainda exista escassez. Mas apesar da melhoria no setor alimentar, o ser humano tem optado por se alimentar de forma prejudicial. Trocam um pedaço de carne e um prato de arroz, por uma comida chamada hambúrguer, que nada mais é do que carne triturada com muitos conservantes e gordura dentro de um pão. O senhor pode imaginar isso? Quando evoluímos ao ponto de extrairmos da natureza alimento para toda a humanidade, optamos por comer o que não é natural? Estamos nos convertendo à cultura do artificial, Sr. Darwin.


Falando em artificial, não foi só a alimentação e os hábitos que mudaram. O corpo humano também vem mudando substancialmente, sem que para isso sejam necessários milhares de anos. Para isso existe uma substância chamada silicone, assim como a cirurgia plástica. O ser humano hoje procura modificar seu fenótipo em busca do que é considerado bonito na época atual. O mais belo nem sempre é o natural. O senhor deve estar confuso neste momento, dentro de sua teoria da evolução. O mais apto hoje em dia pode ser produzido.


Desde a sua época, quando foi criado o microscópio e quando Pasteur descobriu a importância das bactérias na etiopatogenia de muitas doenças, houve muita evolução na Medicina. Hoje há muita tecnologia nos métodos diagnósticos, muitos medicamentos novos, muitas doenças descobertas. Mas ao mesmo tempo, tenho sentido que estamos indo contra o caminho natural da evolução humana. Estamos criando doenças talvez por não suportarmos evoluir.


Toda esta história de sedentarismo tem feito com que utilizemos menos nosso corpo, nossa musculatura. Toda esta alimentação artificial e industrializada tem entupido nossas artérias e originado inúmeras doenças. E todo o avanço na Medicina tem nos permitido tratar o que poderia ser prevenido. Tem nos permitido conciliar a batata frita com as estatinas... o sedentarismo com os remédios para emagrecer... a ansiedade humana com os psicotrópicos.


É por tudo isso, Sr. Darwin, que questiono: Como será nossa espécie num futuro distante? Teremos cabeças enormes e membros curtinhos por nos movermos cada vez menos? Teremos muito mais artérias e veias para agüentar tantas obstruções devido à alimentação cheia de gorduras? Ficaremos resistentes a alguns tipos de câncer certamente engatilhados pela exorbitante quantidade ingerida de conservantes? Nasceremos com uma quantidade de pele extra pronta para receber silicone? Teremos bocas menores por falarmos cada vez menos, nos convertendo ao silêncio diante da televisão e do computador?


Portanto, com todo o respeito, deixo por fim o seguinte questionamento ao senhor: Se vivemos num mundo cada vez mais artificial, o que restará de natural na teoria da seleção das espécies? Continuaremos chamando-a de "seleção natural"?

Andrea Pio

3 comentários:

Taciana disse...

Votação do salário mínimo médico é adiada para próxima semana

A votação do PL 3.734/08 que define o salário-mínimo profissional dos médicos e cirurgiões dentistas foi adiada para a próxima semana. O PL, que estava incluído na pauta de votação da Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público (CTASP) da última quarta-feira (20/05) foi adiado devido ao pedido de vista da deputada federal Gorete Pereira (PR/CE).

Confira os detalhes no portal FENAM: http://migre.me/1kho

Professor Feijó disse...

Muito interessante sua colocação. Com criatividade e arte consegue-se atingir sensibilidades... Parabéns pelo seu texto.
Ass. Luiz Cesar Saraiva Feijó

Marcela Santos disse...

Sinceramente, adorei o texto! Este e muitos outros do blog.
Que bom você dedicar um pouco do seu tempo à escrita!
Eu, todos os dias, desejo que não me deixe esquecer esse lado, que nos é essencial. Arte, seja ela qual for.

Parabéns!

Marcela Santos