30 de junho de 2009

FÉRIAS AO PENSAMENTO

Durante nossa vida, conforme a etapa pela qual passamos, há sempre pensamentos predominantes. Se para a criança predomina o “queria um brinquedo”, ou para o adolescente o “queria chegar mais tarde”, conforme amadurecemos, nossos desejos vão gradativamente amadurecendo com a gente, e adotando – inevitavelmente – o peso da responsabilidade. Quando pensamos então no médico, antes da faculdade e em plena juventude, o pensamento predominante é “preciso passar no vestibular”. Se ele passa, durante a faculdade o pensamento muda para “preciso passar em todas as disciplinas”. Se ele consegue chegar ao final, pensa: “Preciso passar na Residência Médica”. E uma vez na Residência, o pensamento predominante – e recorrente – passa a ser: “Estou precisando de férias”.

É nisto que eu pensava durante o meu primeiro dia de férias, aguardando o avião no aeroporto. Deveria estar bem disposta para a viagem já que iria para um local tão bonito, mas o que eu desejava mesmo é que neste lugar houvesse uma cama bem aconchegante em que pudesse simplesmente dormir. Isto é um privilégio para qualquer residente. Acordar tarde, dormir cedo e não precisar ouvir no início do dia o som desagradável de um despertador, principalmente aquele que simula o cacarejo de um galo. O meu é assim. Tenho odiado galos ultimamente. Pensei então se não seria por isso que não tenho conseguido comer mais frango nas refeições. Vai ver que os frangos estão assumindo o controle do meu inconsciente e me fazendo odiá-los. Só não vou alterar para o som de um mugido porque não pretendo virar vegetariana. Adoro carne vermelha.

Como se fosse preciso interromper meus devaneios, o som do aeroporto informou o início do embarque. Segui com minha família para o avião, feliz por ter aguardado somente quarenta minutos... havia desenvolvido anticorpos contra “espera em aeroporto” no episódio da crise no tráfego aéreo brasileiro em 2007. Interrompi rapidamente estes pensamentos já que havia decidido não pensar em nada repulsivo durante minhas férias. Poderia ser difícil não pensar em problemas, mas tinha a obrigação de tentar. Tomei esta decisão após reler algumas crônicas de minha autoria, nas quais críticas sociais estavam sempre presentes... não que isso estivesse errado, já que as escrevo objetivamente com este propósito, mas apenas decidi que ao retornar das férias, gostaria de escrever algo leve, que não gerasse tantas reflexões.

Geralmente levo um livro para as viagens, dando início à leitura já na partida. Desta vez fui procurar, dentre os que estão aguardando ansiosamente que os leia, algum cujo conteúdo fosse ficção, puxando para uma comédia ou romance. Descobri que não possuía nenhum livro deste gênero em minha casa, exceto pelos de mitologia grega que infelizmente, já havia lido. Insisti em escolher algum dos que não havia lido. Um falava sobre a globalização (confesso que a vontade foi enorme de levar este, mas me contive deixando-o na estante), outro falava sobre a história de um portador da Síndrome de Asperger... embora a sinopse sugerisse uma narrativa cômica, achei que seria um absurdo pensar em qualquer doença em plenas férias da residência. Por fim, sobraram dois que abordavam praticamente o mesmo tema: o poder do pensamento positivo. Definitivamente não achava positivo ler algo que me forçasse tanto a pensar, se justamente, queria dar férias ao meu pensamento. Sentada em meu quarto pensei então: Por que precisaria ler um livro nas férias? E se simplesmente... não lesse? Foi então esta a opção inédita escolhida.

A "opção inedita escolhida" me fez, pouco antes de embarcar, ter a síndrome de abstinência do livro: Pensamento acelerado sobre o que fazer dentro do avião, olhos constantemente voltados para a livraria, pensamento fixo em ler qualquer coisa ao menos por uma hora. Não resistí e resolví comprar uma revista... ao menos não seria um livro. A escolha da revista foi difícil, já que deveria excluir todas aquelas que gerassem pensamentos proibitivos (diga-se pensamentos de cunho social). Excluí então todas as quatro que costumo ler. Como se uma idéia genial despontasse em minha cabeça, resolvi observar em qual setor a maior parte das mulheres, mais ou menos da minha idade, estavam situadas. Me dirigi para lá. Estavam no setor das revistas de fofoca... acho que foi muito ofensivo este termo... corrigindo, estavam no setor das “revistas referentes às personalidades atualmente com fama”. Fiquei até curiosa com algumas notícias nas capas, mas resolvi levar uma sobre exercícios físicos. De posse desta revista, dei início (mais aliviada) as minhas férias físicas e mentais. Seriam duas semanas para atingir dois objetivos: Descansar e não me preocupar - absolutamente - com nada.

E assim passaram-se duas semanas.

Hoje retorno de viagem. Provavelmente você leitor deve estar pensando se consegui atingir meu objetivo de descansar e “não me preocupar”. Seria difícil resumir aqui todo o conteúdo das minhas atividades, e sei que não está muito interessado nisto, de tal forma que serei breve. Deixarei então que você conclua, ao final, se minha mente entrou de férias comigo.

Aboli o despertador. Há dois dias cheguei a inclusive, comer frango no almoço... quem sabe o galo desistiu de permanecer no meu inconsciente e entrou de férias de mim. Embora fosse o esperado, não tive vontade de acordar tarde e dormir cedo... a cidade era tão linda, que certamente seria um desperdício de tempo. Acordava cedo simplesmente por querer acordar e desfrutar de cada segundo dos dias.

O local onde passamos as férias foi o cenário perfeito para meu objetivo. O sul do Brasil, pelo menos o local que visitei até então por mim desconhecido, nos poupa de termos que estar diante de problemas sociais muito claros. Não vi crianças na rua, ninguém me pediu dinheiro, não vi semblantes tristes, não vi casas a ponto de desmoronar. Não vi violência no trânsito, falta de educação, e muito menos aquele espírito de “se dar bem” em cima do turista. Não vi ruas sujas, muros pixados, prédios abandonados no centro da cidade. Não vi a correria dos olhos que nem se cruzam, por estarem apressados demais. Era como se a realidade se transformasse diante dos meus olhos, numa doce utopia.

Diante de tantos passeios fiquei bem sem um livro. Diante de tantas comidas boas engordei mais de um quilo (a revista sobre exercícios físicos permaneceu dormindo). Diante de tanto vinho, realmente em alguns momentos nem consegui pensar. Mas confesso ter cometido dois pequenos deslizes. O primeiro foi num dia muito frio, após o café da manhã. Diante da lareira me sentei e sem querer, folheei um jornal. Parei na sessão referente à política e comecei a ler sobre a crise no senado. Mas não cheguei a terminar, pois lembrei a tempo de minha decisão de não ler nada muito sério. O segundo foi um pouco maior. Prestei atenção na conversa entre duas senhoras – era inevitável, pois estavam na mesa ao lado – e nesta conversa, falaram mal de toda a classe médica. Jogaram todos os problemas sociais e a crise na saúde pública nos ombros dos médicos, colocando nestes a culpa de todo um sistema. Não vou detalhar esta conversa porque não vale a pena. Apenas digo que foi um deslize maior não por ter ouvido a conversa alheia (quem já não fez isso?), mas porque conseguiu me deixar mal humorada por pelo menos duas horas. Uma lástima.

Fora isso, acredito que me saí bem. E assim, começo a questionar se não vale a pena tirarmos férias de pensamento mesmo nos períodos em que não estamos efetivamente de férias. Pode ser que comprar uma “revista referente às personalidades atualmente com fama” seja mais interessante que uma outra que nos faz pensar demais. Pode ser que estar diante dos problemas sociais e questioná-los não implique em deixar se afetar... porque “afetar” vem de afeto... e o afeto precisa de limites. Pode ser que exista uma forma de descansar a mente, sem que para isso seja necessário abrir mão do senso crítico. Sem que para isso, seja necessário abrir mão da sensibilidade.

Este é o saldo das minhas férias e deixo a seu critério julgar se este foi um texto mais leve... ou não. Quanto a mim, já decidi que nas próximas férias também não levarei nenhum livro... só preciso encontrar algum lugar onde tudo também pareça estar bem. No entanto, penso se o local onde tiramos férias não possuia seus problemas ou se fomos nós que não nos permitimos enxergá-los.

Talvez seja possível fazer isso também em nosso contexto habitual. Atingir o equilíbrio entre o conformismo e a crítica. Entre a preocupação e a indiferença. Entre a sensibilidade de observar e a objetividade por não refletir. A questão é justamente se vale a pena conseguirmos dominar o que existe de mais livre na vida... o pensamento.

Andrea Pio

7 comentários:

Helena disse...

Sou suspeita para falar sobre suas crônicas. Em meu caso estimula, tabém, a mãe crítica.: - Existem pensamentos predominantes e que nos acompanham em todas as etapas da vida. Conheço uma mulher que, aos seis anos de idade disse à sua mãe: "você não manda em meu penso", levando sua mãe a pensar em sua função de mãe: levar a filha a entender que o humano é um ser social. O viver em grupo pressupõe regras, normas, para tanto, nosso pensamento é conduzido desde muito cedo. Nos, humanos, somos pautados pelas normas para vivermos em grupos. A mãe deve "mostrar" para os filhos, ela deve faze-los pensar, que aprender a ler e escrever é bom, assim eles irão à escola. Aprender a ouvir uma música, a tocar um instrumento, a ter consciência e limites de seu corpo, estimular competição sadia (isto faz parte da vida, é a relaão mais antiga dos humanos). Mas chega uma das etapas da vida que a filha diz: "NÃO quero ser pediatra, NÃO quero ser Jornalista, NÃO quero ser Bailarina". A mãe sente bastante quando vê cair por terra todo seu trabalho de "formatação" da segunda Maria Esther Bueno. A mãe acorda de seu sonho com um breve romper de pensamento: NÃO VOU MAIS AO BALÉ" (é a fase do aborrecente). A medida que amadurecemos, nossos pensamentos vão, gradativamente, se adaptando ao inevitável: "sou livre para pensar a escolha, entre todas as profissões antes pensadas e formatadas, qual grupo vou me inserir. Um beijo Dra Andrea.
Helena Pio

Cogumelos Company disse...

Muito bom Andrea...como sempre. Entendo como é dificil ficar sem pensar..o pessoal da área da pesquisa prática até meditação...com esse intuito..preservar o cérebro..e o consciente....mas é extremamente dificil...entendo sua problemática..mas parabéns novamente.

Juliana Migliorati disse...

Muito legal seu blog adorei!
Bjos meu blog
http://enfermagemdiario.blogspot.com/

Meire disse...

Muito bom ver médicas blogando ;) Depois de mais de 10 anos de formada, só fui tirar férias nos últimos 2 anos. Esse ano eu literalmente deixei o cérebro na prateleira e esqueci a Medicina.

Abraço !

Taciana Giesel disse...

Médicos de todo o país poderão parar por 24h em defesa do SUS

Médicos de todo o país poderão paralisar suas atividades por 24 horas em defesa do Sistema Único de Saúde (SUS). No dia da paralisação, prevista para 21 de outubro, somente serão mantidos os atendimentos de urgência e emergência.

http://portal.fenam2.org.br/portal/showData/386061

Juliana Migliorati disse...

Vou te contar um segredo eu não durmo direito pq não consigo parar de pensar! rsrsrsrsr.... Muito estranho né! Eu sei.
As vezes necessitamos de um tempo p/ gente mais talvez tentar se afastar dos pensamentos não funcione, na area da saúde são tantas coisas que acabamos vendo, passamos o dia td pensativos as vezes.
Férias é td de bom e despertador de galo ekaaaaaaa...
Eu desperto com a música favorita, ou seja uma que o cantor grita senão eu não acordo rsrrsrsr...
Adoro seu blog muitos beijinhos e um feliz dia do amigo atrasado!

Clayton disse...

Déinha,

Não ficou com abstinência de leitura? Excelente reflexão. Gostei do termo "revista de famosos do momento". As vezes vejo uma destas revistas e falo para minha esposa: Tá dando uma reduzidinha no QI? Mas acho que relaxa mesmo. Eu também dou uma olhada (mas vê se não espalha essa sigilosa informação)! À propósito, sinto falta quando não ouço o galo cantar aqui perto de casa (acordo às 5:30 todos os dias). É porque sou da roça!!! He...he...
Bj!!!