28 de outubro de 2009

APENAS UM SONHO

Ontem tive um sonho – ou melhor, um sonho ruim que não chegou a ser pesadelo. Sei que provavelmente o tive devido ao filme de terror que vi a noite, sem contar que fui dormir com a barriga cheia de pipoca. Geralmente tenho pesadelos se como antes de deitar... mas é raro filmes de terror me causarem o mesmo efeito. Meu veredicto final então é que a vilã da história é a pipoca.

Sonhei que estava no céu. Percebi logo que estava lá, mas não sei explicar o porquê. Era tudo muito limpo, muito claro. Mas o céu era como se fosse uma cidade comum... embora muito mais cuidada que qualquer outra. Eu estava de jaleco, com uma calça social de alfaiataria e uma camisa de cetim rosa. Tive um pensamento tipicamente feminino dentro do sonho: “pelo menos morri bem vestida.”. Mas por que o jaleco? Não é possível... mesmo no céu ainda estaria de plantão? Talvez este seja o típico pesadelo de um médico residente. Estaria de plantão por toda a eternidade? Mas prossigamos no sonho...

Avistei na esquina uma casa bem parecida com um posto de saúde e me dirigi para lá. Perguntei a uma senhora se era realmente um posto e ela riu... Doutora, a senhora não é a primeira médica a vir aqui. É engraçado isto, acho que vocês não se imaginam ficar sem trabalhar. Mas me diga: Como irá trabalhar no céu se as pessoas doentes já morreram? Não existem mais pacientes aqui... só ex-pacientes. As doenças não entram no céu.

Neste momento do sonho senti que – literalmente – o céu havia desabado sobre a minha cabeça. Passaria o resto da vida... ou o que é pior, da eternidade, sem trabalhar? Quem precisaria dos meus cuidados? O que mais poderia fazer? Não que eu ficasse chateada por não haver mais doenças, mas no que poderia trabalhar? Este pensamento foi tão intenso, que provavelmente foi o responsável pelo meu despertar.

Hoje, chegando em casa, comecei a pensar se realmente o céu existir desta forma utópica como aprendemos a pensar desde cedo... o que será dos médicos, enfermeiros, assistentes de enfermagem? O que será dos pesquisadores ligados à área da saúde? E o que será dos farmacêuticos, fisioterapeutas e nutricionistas? O que será dos biólogos que estudam justamente tudo o que é ligado à vida? Um bando de desocupados diante de uma realidade onde a doença não mais existe?

O que nós da área da saúde, poderíamos então fazer no céu? Especializar-nos em outra área? Mas é contraditório existir faculdades no céu... porque lá – teoricamente – as pessoas são todas iguais, não havendo necessidade de evolução intelectual. Partindo deste conceito, outra classe que também estaria rendida ao desemprego é a dos professores... não seria mais necessário se educar no céu.

Quem sabe poderíamos aumentar o contingente dos políticos? Sim... devem ser poucos a irem para lá, mas há os que vão por realmente conseguirem escapar deste sistema sujo que já domina nossas esferas políticas. De qualquer forma, deve ser uma classe pouco representativa lá em cima. Mas e as leis? E os direitos? E os deveres dos cidadãos? Seria necessário elaborá-los, cumpri-los e fiscalizá-los se todas as pessoas no céu pressupostamente fizeram em vida o que é certo? É provável então que os políticos não sejam mais necessários. E, por sua vez, os advogados também deixarão de ser necessários num contexto onde todos respeitarão as normas e não existirão pessoas ruins para serem punidas pelas leis dos homens.

Parece que todos os profissionais da área da saúde não estariam, então, sozinhos no ócio. Unir-se-iam a eles políticos, professores, advogados... além de representantes das diversas religiões, agentes funerários, coveiros, banqueiros, entre outros.

Assim, se você vive dando plantões, se trabalha muito para um sistema de saúde melhor e não está vendo luz no fim do túnel; se você é pesquisador ligado à biologia, ou à genética e vive em constante decepção diante da falta de investimentos nestas áreas; se você é professor e está cansado de um sistema que não valoriza a educação em seus diversos níveis; se ainda é um advogado ético e que se desilude com seus colegas maus profissionais, ou se é um religioso que se entristece com a constante descrença da humanidade em algo maior... para nós todos, que trabalhamos duramente no dia a dia... tenhamos pensamento positivo. Se o céu existe mesmo, vamos continuar trabalhando firme até ficarmos bem velhinhos... depois disto, ficaremos no ócio por toda a eternidade!
Andrea Pio

6 comentários:

Juliana disse...

Primeira dos colegas de residência a saber do sonho (lógico, a Andréa é minha residente chefe e passa visita comigo nos "agudos" diariamente as oito da manha), primeira a comentar a crônica..
Entao, para nós que trabalhamos tanto dia-a dia, ainda resta esperança de termos dias e noites sem ter nada o que fazer, sem ter que se preocupar em cumprir com todas as responsabilidades... Mas sera que nos adaptaremos?
Pensando bem, quero viver muito ainda. Nao tem jeito, mesmo trabalhando muito, quero ser medica por um bom tempo....

Jones Egydio disse...

Oi Andrea,

Gostei muito da sua critica. Muito inteligente como sempre...
Contudo, para que o Céu mantenha esta ordem matemática, são necessários processos.
E falando em processos (...procedimentos...) pensa-se logo nos engenheiros - todo engenheiro é um pouco cartesiano.
Portanto, fico feliz em saber que estarei empregado no Céu... espero pelo menos...
Somente um engenheiro sabe como é dificil estabelecer os requisitos mínimos para que um processo funcione de forma adequada... São necessárias horas e horas de reuniões, atritos, estresse, pensar nos todos as hipóteses, cenários...
Isto não considerando o sistema de iluminação, ar condicionado, saneamento básico... De fato, há campo para todos os tipos engenheiros...
Talvez precisaremos de alguns médicos sim de plantão por lá... pelo menos para socorrer os "pitis" que eventualmente aparecerão...
Pensando assim, acredito que nem no Céu voces deixarão de vestir o jaleco... rsrsrs...
Beijo!

Asdrubal Cesar Russo disse...

Lembrei lendo o texto de uma máxima que ouvi uma vez: "Médico não se aposenta... Médico morre".
Então que pelo menos na eternidade a gente possa relaxar e curtir o ócio.

Juliana Migliorati disse...

Vamos montar uma banda???!
Vamos cantar no céu kkkkkk..
É o jeito adaptação rsrsrsr...
Beijãoooo

Juliana Bordon disse...

Oi amiga, quando li sua crônica até fiquei com um pouquinho de vontade de ir pro céu ( sem morrer é claro!!!!). Mas pensando bem, é melhor ficar por aqui mesmo trabalhando bastante já que temos férias eternas garantidas!!! Beijo, adorei a crônica , e vai trabalhar!!!!!!

" Maíra Perrout " disse...

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